História de Vila Franca de Xira

História de Vila Franca de Xira
Vila Franca de Xira

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No lugar do actual concelho de Vila Franca de Xira existiram ao longo da Idade Média e até meados do século XIX quatro concelhos distintos - o de Povos (hoje uma povoação da freguesia de Vila Franca de Xira), Alverca do Ribatejo, Alhandra e Vila Franca. Em 1855, porém, estavam todos integrados no actual concelho de Vila Franca.

Pré-história

Caçadores - Recolectores

São do Paleolítico Inferior as mais antigas evidências de actividade humana encontradas no território de Vila Franca de Xira. Trata-se de instrumentos de pedra lascada recolhidos no terraço quaternário de Alverca, cujo ponto mais alto se situa no Alto do Pinheiro.

Também nos terraços quaternários do rio Tejo, junto à Castanheira, se recolheram artefactos de pedra lascada que testemunham acampamentos temporários de caçadores-recolectores nos terrenos junto ao rio. Os recursos alimentares eram abundantes: peixe e marisco do Tejo, caça de animais que se deslocavam na área e ainda os vegetais que cresciam nos vales.

Pastores e Agricultores

A apropriação da agricultura e da pastorícia e a criação de excedentes alimentares a partir do Neolítico levaram à constituição de comunidades que ocuparam as elevações sobranceiras ao Tejo e outras bacias hidrográficas como os vales de Vialonga, Calhandriz e São João dos Montes. Guardando o grão no celeiro comum e defendendo colectivamente os meios de subsistência, estas comunidades criaram os seus pequenos mundos em torno das aldeias.

No segundo milénio a.C., o domínio da metalurgia (Bronze e Ferro) revolucionou o mundo. As populações sentiram necessidades de protecção, edificando povoados fortificados no cimo dos montes.

Vila Franca de Xira teve ocupção durante o Neolítico final e calcolítico. Os abrigos naturais – grutas da Pedra Furada atestam os enterramentos colectivos desses homens. Foram encontrados alguns materiais de contexto funerário Como exemplo: algumas contas de cerâmica, restos de um vaso e uma taça campaniformes, um coelhinho em osso, objecto votivo ou mágico ligado provavelmente ao culto da fertilidade.

A cultura campaniforme está também representada noutros locais elevados da região como o Alto do Pinheiro no Sobralinho e a gruta artificial da Verdelha do Ruivo em Vialonga onde foram detectados 44 enterramentos do Calcolítico. Esta constituía em conjunto com um Dólmen e um silo, uma zona habitacional e de enterramentos dessa Cultura.

Nos montes sobranceiros a Vialonga em Monte Serves existem vestígios duma anta e um Dólmen chamado do Penedo constituindo assim marcas do megalitismo na zona.

A cultura campaniforme está também representada noutros locais elevados da região como o Alto do Pinheiro no Sobralinho e a gruta artificial da Verdelha do Ruivo em Vialonga onde foram detectados 44 enterramentos do Calcolítico. Destruída em parte pela pedreira do Casal do Penedo, constituía em conjunto com um Dólmen e um silo, uma zona habitacional e de enterramentos desta Cultura.

No primeiro milénio a.C., em plena Idade do Ferro, existiu na Castanheira do Ribatejo o povoado fortificado do Monte dos Castelinhos, em localização estratégica na passagem da lezíria para o interior, através da várzea do Rio Grande da Pipa. Próximo, embora já fora da área do actual concelho de Vila Franca, localizava-se o Castro do Amaral, a noroeste de Cadafais. Seriam estas sociedades guerreiras que defrontariam, alguns séculos mais tarde, os conquistadores romanos.

Romanização

A localização do território de Vila Franca de Xira na planície hidrográfica do Tejo levou a que esta área não ficasse alheia à romanização, podendo falar-se não só em presença romana - comprovada pela existência de achados dispersos na quase totalidade das freguesias, mas também de ocupação romana, nomeadamente em Povos.

Favoravelmente condicionada pela sua situação geográfica, a região de Vila Franca foi, na época, atravessada pela principal via terrestre de acesso a Lisboa (Olisipo) que, em Alverca, se bifurcava: seguia uma pelo vale de Vialonga para Santo Antão do Tojal e Loures e a outra ladeava o rio na direcção da Póvoa de Santa Iria. O rio era, no entanto, a grande via navegável por onde chegavam e se escoavam os produtos.

A comprová-lo, o conjunto de ânforas que têm sido encontradas por pescadores no leito do Tejo, nomeadamente junto aos mouchões de Alhandra e da Póvoa, e que denunciam a intensa actividade comercial romana. Transportadas nos porões dos navios, as ânforas continham produtos como o vinho, o azeite, os cereais e as conservas de peixe.

Também lápides funerárias epigrafadas, existentes em várias freguesias do concelho, testemunham a presença romana. Dedicadas aos deuses Manes são as lápides epigrafadas provenientes do monte do Senhor da Boa Morte (Vila Franca de Xira), da Póvoa de Santa Iria e de São Romão (São João dos Montes). Em Alverca (Bom Sucesso) foi encontrada uma outra lápide funerária que se encontrava deslocado do primitivo contexto.

Ocupação Islâmica

Não fugindo à regra da historiografia nacional, sobre o processo de islamização no concelho de Vila Franca de Xira pouco se sabe, parte deste espaço teria pertencido a um distrito rural na época islâmica ao qual estaria ligado o povoamento correspondendo aos períodos emiral/califal relacionando-se com os terrenos férteis das Lezírias do Tejo e também com a província de Balata.

Os vestígios desta ocupação apareceram no Alto do Senhor da Boa Morte em Povos fruto de duas campanhas arqueológicas. Trata-se de um recinto fortificado que corresponderia a um Castelo/território, localizando-se nas proximidades de um dos eixos viários mais importantes entre duas capitais importantes - Santarém e Lisboa. Desfrutando de ampla vista sobre o Tejo, tinha o seu ponto mais alto no cimo do cabeço, onde coexistiam o fortim superior que seria quadrangular ou rectangular, silos, uma muralha de taipa terrosa com cerca de 1,50m de espessura, com algumas estruturas de habitações associadas que se localizariam no interior e exterior leste da muralha, e provavelmente uma segunda linha de muralhas atestada pela existência de taludes em zonas das encostas.

Através das sondagens arqueológicas feitas em 1991 e 1995 para além das estruturas já descritas foram detectados artefactos cerâmicos cuja cronologia remonta à época Omíada até à Reconquista, pode-se concluir que estamos perante uma construção do período Omíada e o espólio encontrado mais antigo corresponde às épocas Califal e dos reinos de Taifa. Em Alverca também apareceu alguma cerâmica islâmica.

Castelos e Forais

1195 é a data do foral de Povos. Pouco seguro estava ainda o vale do Tejo que sofrera, ainda cinco anos antes, arremetidas muçulmanas. Estava-se em plena "Reconquista cristã" e o foral, doado pelo rei D. Sancho I aos moradores do castelo de Povos, patenteia as preocupações defensivas nos direitos e deveres que estabelece.

No início do século XIII prosseguiu a instituição dos concelhos. Em 1203 o bispo D. Soeiro de Lisboa deu foral a Alhandra e em 1206 D. Froila Hermiges recebeu a herdade de Cira, à qual dará foral em 1212. A outorgação de foral a Vila Franca e a Cira, distinguindo explicitamente no texto os dois lugares, faz-nos supor a existência de uma primitiva herdade de Cira, situada mais no interior, e uma Vila Franca nas margens do rio, onde o tráfego de pessoas e produtos mais facilmente se fazia. A designação de Vila Franca de Xira será comum na documentação a partir do século XIV. Alverca recebeu confirmação de concelho em 1357.

Concelhos na Margem do Tejo

Em 1510 Vila Franca, Povos e Castanheira receberam foral novo, no âmbito da reforma dos forais promovida por D. Manuel I.

Alverca foi das capelas de D. Afonso IV, Alhandra pertenceu aos Arcebispos de Lisboa e no século XVIII ao Patriarcado. Vila Franca era da Ordem de Cristo e, a partir do século XVI, dos bens da Coroa.

Às lezírias, produtoras de trigo, cevada, milho e legumes e abundantes de caça e de gado acorriam jornaleiros e rendeiros da outra margem. A pequena agricultura de frutas e legumes em Alhandra, os cereais, frutas, vinho, sal e azeite em Alverca, o trigo, vinho, azeite e frutas em Povos - dominavam a produção do lado de cá do rio. A profusão de atafonas, moinhos de vento, azenhas e lagares de azeite completava este sistema económico tradicional.

A pesca, em que o Tejo era abundante, constituía naturalmente outra actividade importante. Fataças, linguados e sáveis eram pescados em todas as vilas, originando um comércio destas espécies. Nas feiras locais trocavam-se os produtos. Três vilas tinham feira franca: Alhandra em 15 de Agosto, Alverca em 15 de Julho durante três dias e Vila Franca, também durante três dias, no primeiro Domingo de Outubro, subsistindo pujante esta última até à actualidade.

A finalizar o breve retrato económico da região no final do Antigo Regime, refira-se a fundação de uma fábrica de curtumes em Povos, em 1729, que foi a primeira deste ramo no País, ocupando durante muito tempo uma posição cimeira na produção nacional de curtumes.

Primeira Metade do Século XIX

No início do século XIX toda a região foi abalada pelas invasões francesas. Uma vez mais, a localização estratégica da área foi posta em relevo na construção do sistema defensivo, construído em grande sigilo entre 1810-1812, para fazer face ao invasor francês que se iniciava neste concelho e que haveria de ficar conhecido por linhas de Torres Vedras.

Outro acontecimento nacional ficou inexoravelmente ligado ao nome de Vila Franca nos conturbados tempos que acompanharam a instauração do liberalismo em Portugal. Tratou-se da Vilafrancada, golpe de estado comandado por D. Miguel que decorreu de 27 de Maio a 3 de Junho de 1823 em Vila Franca de Xira, onde se instalaram, primeiro, D. Miguel e um regimento e depois toda a guarnição e o próprio rei D. João VI. A este golpe esteve ligado também outro personagem relacionado com a região de Vila Franca de Xira, o 1.º conde de Subserra, de seu nome Manuel Inácio Martins Pamplona Corte-Real, nomeado ministro da guerra após a Vilafrancada, mas caído em desgraça logo no ano seguinte, aquando da Abrilada.

Foi no século XIX que tomou forma administrativa o concelho de Vila Franca de Xira, tal como hoje o conhecemos, no quadro do reordenamento geral dos municípios promovido pelo regime liberal.

Sucessivamente, foram extintos os velhos concelhos existentes na região e que tinham todos raízes medievais: em 1836 deu-se a extinção do concelho de Povos e no ano seguinte desapareceu o de Castanheira. Em 1855 a reforma varreu os concelhos de Alhandra e de Alverca, passando doravante Vila Franca de Xira a integrar toda esta área administrativa. Em 1886, com a extinção do concelho dos Olivais, a freguesia de Vialonga passou para o concelho de Vila Franca e, finalmente, já no século XX, em 1926, a freguesia de Póvoa de Santa Iria foi também anexada alargando para sul a área do município.

Tempos de Mudança

A chegada do comboio em 1856, no âmbito da abertura do primeiro troço de linha férrea do país - de Lisboa ao Carregado - marcou o início de um novo período no desenvolvimento da região. Já próximo do final do século a industrialização assentará arraiais precisamente nesta faixa bordejante do caminho de ferro. À Póvoa de Santa Iria chegou em 1859 a indústria de produtos químicos, conhecida por "Fábrica da Póvoa".

Em 1892 iniciaram o seu funcionamento em Alhandra duas fábricas têxteis, sendo uma de tecidos de linho e juta e outra de fazendas de lã, localizada esta última na Quinta da Figueira, onde, apesar de desactivada, ainda hoje se mantém. Também em Alhandra, abriu, em 1894, a fábrica de cimentos fundada por António Teófilo de Araújo Rato que, após sucessivas transformações, daria origem à actual fábrica da Cimpor.

Em Vila Franca de Xira, no virar de século instalou-se a moagem industrial e ainda uma fábrica de cintas. A Alverca chegou em 1918 o Parque de Material Aeronáutico que originaria as actuais Oficinas Gerais de Material Aeronáutico (OGMA) e que, pela sua dimensão de implantação, haveria de condicionar o ordenamento futuro da vila.

Contemporâneo da industrialização, foi um forte movimento cultural e associativo que se desenrolou no concelho na segunda metade do século XIX e que se viria a repercutir até à actualidade. Em 1862 foi fundada a Sociedade Euterpe Alhandrense, a mais antiga associação cultural hoje existente. Também em Alhandra, em 1865, foi inaugurado o Teatro Tália onde se estreou Salvador Marques, actor e dramaturgo natural desta vila. Em 1870 era criada a Filarmónica 1.º de Dezembro em Vila Franca de Xira e quatro anos depois surgia em Alverca a Sociedade Filarmónica de Recreio Alverquense. Do Grupo Ocarinista de Vila Franca (1886), evoluído em 1891 para Fanfarra 1.º de Maio, haveria de surgir mais tarde a actual associação Ateneu Artístico Vilafranquense. Em 1905 era inaugurado em Alhandra o Teatro Salvador Marques.

Os efeitos da implantação da industrialização no já então consolidado concelho de Vila Franca de Xira tiveram gradual e progressiva repercussão demográfica. Em 1864, data dos primeiros censos fidedignos no país, a população total do concelho de Vila Franca era de 13.622 pessoas, valor que em 1900 passou para 15.766 habitantes. Mais significativas são as diferenças ocorridas entre 1900 e 1920, ano em que o concelho registava já 21.349 habitantes - nos primeiros vinte anos do século XX a população aumentou 35%. Os números dos últimos quarenta anos falam por si: se em 1960 o concelho tinha 40.594 habitantes, os censos de 1991 contaram 104.610 residentes. Para este aumento contribuiu significativamente a década de setenta, em que a população cresceu mais de 60%.

Testemunhas directas das mudanças ocorridas no concelho de Vila Franca de Xira a partir de meados deste século, e delas dando conta em obras de ficção que marcaram a literatura portuguesa, foram os escritores Alves Redol e Soeiro Pereira Gomes. Em Vila Franca de Xira ocorreu mesmo nos anos 30 e 40 uma movimentação cultural forte, aglutinada por Redol, e conhecida como o grupo neo-realista de Vila Franca. Tanto Redol como Soeiro envolveram-se directamente na vida cultural local estimulando e liderando iniciativas teatrais e artísticas.

Populações com variadíssimas origens povoam hoje o actual concelho de Vila Franca de Xira. Temos de recuar ao século XIX, e mesmo ao século XVIII, para encontrar os primeiros migrantes. Eram pescadores da costa atlântica norte, oriundos de Ovar, Murtosa e Estarreja que vieram em busca de melhor faina e que nestas terras do sul ficaram conhecidos por varinos. Da pesca, tendo passado para a actividade comercial, misturaram-se os varinos com a população vilafranquense, da qual fazem hoje parte integrante. Também desde o século XIX, mas sobretudo a partir de meados do século XX, chegaram ao Tejo outros pescadores atlânticos, desta vez provenientes da praia de Vieira de Leiria. Conhecidos por Avieiros, as suas comunidades destacam-se ainda hoje na paisagem ribeirinha da Póvoa de Santa Iria, Alhandra e Vila Franca. Os migrantes da era industrial vieram um pouco de todo o país, com especial incidência para as proveniências do alto Ribatejo, Alentejo, Beiras e, com menos expressividade, Trás-os-Montes. A estes novos operários viriam juntar-se nos anos mais recentes trabalhadores de serviços e jovens oriundos da capital, arrastados na expansão desta até à periferia. Numa segunda vaga é de acrescentar os emigrantes oriundos das ex-colónias portuguesas que abandonam os respectivos países, no rescaldo da guerra nos anos 80 e 90 do Século XX, em busca de melhores condições de Vida. Na viragem de século, destacam-se os emigrantes de outros países, com grande evidência para os países de leste, que após o desmembramento da União Soviética e o término da "guerra fria", na procura mais qualidade de vida, se deslocam para o sul da Europa.O horizonte temporal da permanência migrante no concelho de Vila Franca de Xira faz com que na década de 90 a população do concelho inclua já uma segunda e mesmo uma terceira geração de filhos de migrantes. Este facto permite já o estabelecimento de códigos de identidade sedimentados pela memória patrimonial, a que os mais jovens dão a necessária sobrevivência.

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