Mário Gomes Figueira

Mário Gomes Figueira
Vila Franca da Serra

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O Dr. Mário Gomes Figueira é, historicamente, um dos últimos grandes republicanos, socialista e laico, do concelho de Gouveia.

É uma personalidade típica do século XX português, daquelas que nunca se vergaram ao situacionismo dominante até ao 25 de Abril de 1974, que cultivou com heroísmo, nos tempos difíceis da ditadura, os ideais de liberdade, igualdade e fraternidade e que acreditava, convictamente, no homem e nos seus direitos inalienáveis.

Origens

Os seus pais, Manuel Gomes e Elisa de Jesus Figueira, eram professores primários em Vila Franca da Serra, Gouveia, uma terra de agricultores e pastores, nos anos da transição da Monarquia para a República. É nessa aldeia serrana que nasce em 1912 e Vila Franca será ao longo da sua vida uma referência e uma inspiração permanente.

Aldeia típica da Beira Serra profunda, uma terra parada no tempo, entre o Mondego e a Serra da Estrela, longe de tudo e isolada do mundo, apesar de estar apenas a 3 quilómetros da linha do caminho de ferro da Beira Alta e pouco mais de uma légua da Estrada Real, a nova Estrada da Beira, que da Guarda levava a Coimbra.

É neste ambiente fechado que Mário aprende as primeiras letras na escola dos seus pais e molda a sensibilidade que lhe coube. Se o seu carácter como homem e como cidadão tem uma matriz profundamente rural e beirã é em Coimbra que abre o espírito às causas da sua vida.

Em Coimbra

Coimbra, a Universidade, a sua faculdade de Medicina foram uma paixão para toda a vida. Era visível o gosto e o orgulho com que ostentava a velha pasta da praxe e as simbólicas fitas amarelas nos encontros anuais com os colegas de curso ao longo da vida, como que ensinando às novas gerações, que a autenticidade das tradições académicas não se confundem com reaccionarismo e são perfeitamente compatíveis com a modernidade e a defesa dos valores democráticos.

Carreira como médico

Era médico por vocação e poderia ter sido um grande mestre de medicina ou um especialista de renome numa qualquer cidade do País. Escolheu para si próprio a honra de ser um clínico de aldeia.

O povo humilde que serviu ao longo da vida espalhou-lhe a fama de ter “mãos de santo”, de quase fazer milagres. Quem o conheceu e a ele recorreu fosse para assistir a um parto ou realizar uma pequena cirurgia, arrancar um dente ou tratar uma pneumonia, acudir a um caso de bexigas ou sarampo numa criança, ou às muitas tuberculoses que então se verificavam, tem dele a ideia correcta de o ver como o João Semana das encostas da Serra da Estrela.

Em Melo, em Folgosinho, de Figueiró dos Vinhos a Gouveia, de Vila Franca a Nabais mais de uma década após a sua morte, há ainda nas pessoas uma saudosa recordação, misto de gratidão e respeito. Para o Dr. Mário nunca houve horários ou distâncias, desculpas ou pretextos, para deixar alguém sem assistência. Era um clínico geral polivalente, actualizado, que associava o instinto inato para a prática médica ao estudo permanente, podendo dizer-se, com verdade, que era um especialista competente em várias áreas da medicina. Os serranos tinham razão: o Dr. Mário tinha mãos de santo.

Amizade com Vergílio Ferreira

Melo, hoje, mundialmente conhecida como a terra de Vergílio Ferreira, foi durante décadas a terra do Dr. Mário Figueira. Sua esposa, a senhora D. Alice Cerveira Vaz, é natural de Nabaínhos, uma aldeia anexa de Melo, pelo que foi com naturalidade que adoptou aquela vila histórica do concelho de Gouveia como a sua terra profissional, ali tendo nascido as três filhas do casal.

Cultivou e manteve com o Dr. Vergílio Ferreira uma sólida amizade, desfrutando, médico e escritor, durante longos anos, do prazer de apreciar as maravilhas de uma serra bela e única e de partilharem, com angústia e cumplicidade ideológica, preocupações de carácter social e cívico, num Portugal amordaçado, num mundo rural em crise, onde tudo ia morrendo.

É assim com naturalidade que o médico aparece como personagem em várias obras de Vergílio Ferreira, às vezes de forma tão explícita que preocupou o Prof. José Rodrigues, um dos grandes amigos do Dr. Mário Figueira em Melo, cunhado mas íntimo como um irmão, de Vergílio Ferreira, a ponto de lhe chamar a atenção para tantas coincidências, ao que o grande mestre das letras portuguesas retorquiu:

"Se tenho aqui, conheço e sou amigo de um homem destes, porque havia eu de inventar uma outra nova personagem?"

Bem demonstrativo dos profundos sentimentos que ligavam Vergílio Ferreira a Mário Figueira é o facto de lhe ter oferecido o original manuscrito de um dos seus romances: Vagão J.

Lagar da Moira

A terra, a natureza, a agricultura, interessaram-lhe sempre muito. Era o regresso a uma ruralidade que os estudos superiores e a actividade clínica nunca apagaram da sua maneira de ser. Acompanhava de perto os trabalhos agrícolas e esforçou-se por modernizar a sua prática. A Moira era a sua propriedade predilecta e o Olival com vista para o Penedo do Mazorro, com os seus vestígios arqueológicos, uma espécie de santuário natural, que o seduzia.

A renovação do Lagar da Moira, que transformou numa das unidades de laboração da azeitona mais avançada da região, atesta bem a sua visão de futuro e a sua vocação para apoiar os agricultores da área do Alto Mondego e rentabilizar as suas explorações.

Seria ali, à sombra do Mazorro, junto à Moira que, na sua Vila Franca natal, uma casa que amorosamente fizera construir com granito da nossa serra, viria a morrer em Agosto de 1995.

Dias depois teria lugar em Gouveia a inauguração da Biblioteca Vergílio Ferreira, acto presidido pelo Presidente da República Dr. Mário Soares. Seria um momento único na vida de um grande democrata, esse encontro com o amigo Vergílio Ferreira e com a referência histórica do socialismo em liberdade que é Mário Soares. O ter sido ali evocado o seu nome e o seu exemplo foi a homenagem possível.

Vida política

O Dr. Mário Figueira viveu praticamente toda a sua vida activa num regime fascista que odiava profundamente e que combateu em todas as oportunidades e circunstâncias. Mas foi sempre um homem livre em tempo de servidão. Esteve presente em todos os momentos decisivos da luta contra o salazarismo, fosse nas eleições de Norton de Matos ou Humberto Delgado, nos congressos democráticos de Aveiro, nas listas da oposição pelo Distrito da Guarda, no arremedo das eleições, para a então Assembleia Nacional. Não é de estranhar que o seu nome fosse sistematicamente recusado na nomeação para Delegado de Saúde no Concelho de Gouveia.

O 25 de Abril de 1974 encontra-o já na última fase da sua vida profissional, mas o cidadão pode finalmente viver em democracia e sentir o gosto de ser livre em liberdade. Consequente com os seus princípios aderiu ao Partido Socialista, onde pode reencontrar muitos dos seus velhos camaradas da Oposição Democrática como o Dr. João Gomes, da Guarda ou José Rabaça, de Manteigas.

A humildade própria de todos os homens que são verdadeiramente grandes, impediu que o seu prestígio e valor o alcandorassem ao exercício de cargos públicos na democracia que ajudara a restaurar. Exerceu sempre com apurado sentido de dever cívico os seus direitos de cidadania no Portugal livre e democrático, dando o exemplo aos seus concidadãos através da participação nas listas autárquicas do PS Gouveense, tendo mesmo sido eleito membro da Assembleia Municipal.

Nunca confundiu partidos e eleições com democracia, nem pessoas com votos. Respeitava as ideias e as escolhas de cada um dos seus conterrâneos, dos seus amigos, dos seus doentes, sendo incapaz de insinuar ou apelar ao voto sempre que sabia que era outra a escolha consciente desse cidadão.

Homenagens

O Concelho de Gouveia reconheceu os seus méritos como médico, como cidadão e como republicano e resistente à ditadura e atribuiu-lhe a Medalha de Mérito Municipal, por votação unânime dos órgãos autárquicos. Em Vila Franca da Serra a sua memória é evocada particularmente no coração dos seus conterrâneos, mas a rua principal da terra é lhe dedicada por direito próprio. Ainda hoje, nessa longa avenida, enormes tílias e outras árvores do mais variado tipo que ali fez plantar, há mais de 50 anos, são testemunho vivo da sua presença afectiva na terra que tanto amou.

O Museu do Lagar da Moira e a Associação Mário Gomes Figueira evocam a sua vida, o seu legado e são uma forma de o tornar presente, pela cultura nos dias de hoje e nos tempos que hão-de vir. Mas, de tudo o que dele recordamos o que mais gostaríamos que perdurasse no espírito de todos os que contactarem com este nome ou ouvirem falar de Mário Gomes Figueira, é que foi um homem justo, um homem tolerante, um homem de princípios, um homem de valores, que olhava todos os outros homens como iguais e que acreditava que só consciências livres e esclarecidas constroem a verdadeira Liberdade.

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