Piódão

Piódão
Arganil



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Piódão é a freguesia portuguesa mais longínqua do concelho de Arganil, com 36,36 km² de área e 224 habitantes (2001). Densidade: 6,2 hab/km². Está incluída no Programa das Aldeias Históricas.

A aldeia de Piódão situa-se numa encosta da Serra do Açor.

Localidades

A freguesia inclui as seguintes aldeias e quintas: Piódão, Malhada Chã, Chãs d'Égua, Tojo, Fórnea, Foz d`Égua, Barreiros, Covita, Torno, Casal Cimeiro e Casal Fundeiro.

Caracterização

As habitações possuem as tradicionais paredes de xisto, tecto coberto com lajes e portas e janelas de madeira pintada de azul. O aspecto que a luz artificial lhe confere, durante a noite, conjugado pela disposição das casas fez com que recebesse a denominação de “Aldeia Presépio”. Os habitantes dedicam-se, sobretudo, à agricultura (milho, batata, feijão, vinha), à criação de gado (ovelhas e cabras) e em alguns casos à apicultura.

A flora é em grande parte constituída por castanheiros, oliveiras, pinheiros, urzes e giestas. A fauna compõe-se, sobretudo, de coelhos, lebres, javalis, raposas, doninhas, fuinhas, águias, açores, corvos, gaios, perdizes e pequenos roedores.

Actualmente, a desertificação das zonas do interior, afecta praticamente todas as povoações desta freguesia. As populações mais jovens emigraram para o estrangeiro ou para as zonas litorais à procura de melhores condições de vida, regressam às suas origens, sobretudo, durante as épocas festivas para reviver o passado e se reencontrarem com os seus congéneres.

A paisagem envolvente

Por entre caminhos e veredas, hoje estradas, atravessando ou ladeando a Serra do Açor e de tal forma deslumbrados com a paisagem, quase nos esquecemos dos precipícios que acompanham a estrada que sai de Arganil: são 35 Km de surpresas sucessivas que terminam numa das mais antigas aldeias serranas de Portugal, o Piódão. Um percurso inesquecível pela Serra do Açor, em estradas estreitas mas extremamente bem sinalizadas.

Descendo da Estrela para se unir à Lousã por entre o rio Alva e o rio Ceira, a Serra do Açor integra-se na cadeia montanhosa que corta Portugal transversalmente, estabelecendo o limite das serranias de altitudes elevadas que contrastam com as aplanadas orografia do Sul. O seu ponto mais alto, o Picoto do Piódão, chega a atingir os 1.400 metros de altitude.

Pela EN 17, de Coimbra em direcção à Guarda, toma-se a estrada para Arganil, daí seguindo em direcção a Coja, pela estrada EN 342. De Coja para o Piódão, dois caminhos são possíveis: sem deixar a EN 344, passando por Cerdeira; ou, logo depois da aldeia de Pisão, seguindo pela estrada que surge à direita, em direcção a Benfeita, optando-se assim por fazer o caminho pela Paisagem Protegida da Serra do Açor.

Situada na vertente Norte da Serra do Açor, a Paisagem Protegida da Serra do Açor, ocupa uma área de 346 ha e integra a Mata da Margaraça - Reserva Natural Parcial - e a Fraga da Pena - Reserva de Recreio. Na Fraga da Pena, adensa-se a vegetação e regala-se a vista com quedas d'água e pequenas lagoas que vão surgindo à medida que se sobem os penhascos, salpicados, aqui e além por rústicos bancos e mesas. Retoma-se a estrada alcatroada que termina logo depois de passada a aldeia de Pardieiros, iniciando-se aí o caminho de terra que atravessa a Mata da Margaraça. Num vale perdido da Serra do Açor, a mata verde é densa, sempre húmida, relembra ainda as florestas primitivas que durante séculos cobriam as serranias do Centro. A Mata da Margaraça constitui um raro testemunho da vegetação espontânea (e muito diversa) da paisagem serrana e uma importante reserva genética de vegetação e animais selvagens. Um testemunho quase único em Portugal de que as matas naturais têm uma vitalidade e riqueza em nada comparável às monótonas plantações de pinheiros ou de eucaliptos.

Impõe-se um passeio a pé, para encontrar quedas d'água, degraus talhados na rocha que sobem ao longo da levada da água ou as raras casas agora reconstruídas, como a Casa da Eira, rusticamente mobilada à maneira de antigamente. Sempre fresca, sempre húmida e escorregadia, sempre verde. Passear pelo bosque e descobrir então um sem número de carvalhos e castanheiros, cerejeiras bravas e azevinhos, avelaneiras ou mesmo loureiros, e muitos outros arbustos como o medronheiro que, de tão antigo se fez árvore. Na mata ouvem-se os cucos, as rolas e as gralhas pretas ou as corujas, e entre os tufos de martagão, descobrem-se por vezes vestígios de doninhas e raposas, de genetas ou de javalis. O açor, que dá nome a Serra, paira ainda nos céus, ao lado do gavião ou da águia de asa redonda, pacientemente esperando alguma cria incauta que lhes sirva de repasto.

As primeiras referências escritas a esta mata datam do século XIII, quando era propriedade dos bispos de Coimbra, mantendo-se assim até ao século XIX. Com o regime liberal, a Mata da Margaraça, já então designada por Quinta da Margaraça, passa primeiro para a posse do Estado, para logo de seguida ser vendida a particulares em hasta pública. Manteve-se desde sempre conservada, intocável, até que muito recentemente (1979) o seu último proprietário privado iniciou o corte dos majestosos castanheiros e carvalhos.

A relação antiga, quotidiana, que as populações de Pardieiros, Monte Frio e Relva Velha mantinham com a mata, foi-se tornando apenas sentimental: abandonaram-se as azenhas e os fornos que enquadravam as tradicionais actividades humanas e desprezaram-se as quelhadas ou a courela de castanheiros antigamente explorados em regime de talhadio. Mas foi esta relação sentimental que salvou a mata da destruição total, quando as gentes de Pardieiros, sacrificando um valor tão básico para estas povoações isoladas, abriram valas na estrada, e impediram a passagem das camionetas e o desbaste da floresta.

Em Janeiro de 1983 a Quinta da Margaraça e adquirida pelo Estado e, por via do Dec.-Lei n.º 25/89, são oficialmente definidas medidas cautelares para esta Área de Paisagem Protegida da Serra do Açor. Cautelares mas não preventivas: não foram suficientes para prevenir o incêndio que, ateado nos pinhais da região, alastrou à mata e destruiu a orla do arvoredo, em cerca de dois terços da sua superfície.

Retoma-se então o caminho para o Piódão. Para trás ficou a mata verde e fresca, e eis que surge destacada, a mancha alva e cuidada de Monte Frio. Segue a estrada pelo alto amparada a um lado pela parede de xisto para logo no outro se perder na vertigem do precipício. Só depois do cruzamento de Porto da Balsa começa então o desfiladeiro da descida ao vale onde se esconde o Piódão. A imagem branca de Monte Frio ainda fresca na memória, e de repente substituída por essa escura incrustação de xisto arrancado da serra e desnudado no casario, onde se destaca a Igreja pintada de branco.

História

Há muitos séculos que as verdes pastagens da Serra do Açor atraíam grupos de pastores que para aí levavam os seus rebanhos. Diz-se mesmo que esses pastores seriam os Lusitanos, hábeis criadores de cavalos que povoavam os Montes Hermínios (Serra da Estrela). Ao longo dos tempos as populações foram criando condições para a sua subsistência, conquistando à Serra cada pequena leira cultivada em socalcos. A agricultura, a pastorícia e a apicultura constituíram assim as principais actividades das populações do Piódão.

Pelo alto da Serra do Açor, próximo do Piódão, passava a antiga estrada real que ligava Coimbra à Covilhã por onde circulavam caravanas de carros de bois que traziam do litoral o peixe e o sal para levarem no regresso a carne, o queijo e os lanifícios destas terras do interior. Por ali passavam mercadores e pastores e até salteadores. Diz-se também que terão sido os ataques dos salteadores que incentivaram a união dos solitários pastores, espalhados por aquelas agrestes penedias onde criavam éguas, cavalos, ovelhas e cabras.

Situado num vale profundo e isolado, escondido nas faldas da Serra do Açor, o Piódão foi considerado, desde tempos remotos, como o local de eleição para refúgio de muitos foragidos da justiça. Ali se terá acolhido o fidalgo Diogo Lopes Pacheco, o único dos assassinos de D. Inês de Castro que logrou escapar à fúria de D. Pedro, quando, em segredo, vinha de Espanha a Portugal. Também aqui se teria refugiado João Brandão, misto de herói e assassino. Diz-se dele que atacava os seus inimigos pela calada da noite para se refugiar durante o dia em casa do Pároco do Piódão. E fala-se ainda de outros salteadores, em tempos mais ou menos remotos, como José do Telhado ou o Oliveirão.

Na sua origem a população pode ter alguns fora-da-lei, mas tem também a fidalguia e abastança dos seus senhores, com direito a tribuna própria na Igreja da Lourosa. Foi desta memória que ficou uma conhecida quadra popular.

"Gente nobre do Piódão
Gente de grande tesouro
Vão à missa à Lourosa
Com as suas esporas de ouro."

A criação da freguesia do Piódão data de 1676 e há notícia de ter sido um curato de apresentação anual no cabido da Sé de Coimbra. No final de Oitocentos, o Piódão transformou-se no pólo cultural de uma vasta região beirã por obra do seu jovem pároco, o padre Manuel Fernandes Nogueira, ali colocado em 1885 quando tinha apenas 25 anos. A ele se ficou a dever a fundação do seminário-colégio em 1886 que preparava os jovens para os estudos universitários e, mais frequentemente, para a vida eclesiástica. E ali ensinava, quase sozinho, todas as disciplinas do curso preparatório do Seminário. Tendo funcionado até 1906, a qualidade do ensino do Colégio do Piódão ultrapassou os limites do seu isolamento, atraindo centenas de jovens oriundos das mais diversas terras dos concelhos de Coimbra, Guarda e Castelo Branco. Alguns dos seus alunos tornaram-se depois figuras de destaque na vida política e eclesiástica Portuguesa.

A acção do padre Manuel Fernandes Nogueira, actualmente homenageado por uma estátua no largo da aldeia, não se limitou ao aspecto académico e cultural da povoação. Incentivou o desenvolvimento da agricultura e da silvicultura, criando na população laços estreitos de vida comunitária, e participando activamente no desenvolvimento económico da freguesia. Com o encerramento do Colégio, retoma-se o antigo esquecimento, interrompido a breves espaços pelos esforços isolados dos seus povos.

Só na década de 70 é que o Piódão consegue enfim aceder, e se tornar acessível, ao resto do mundo, com a abertura da estrada até à aldeia, em 1972, e a instalação de energia eléctrica, em 1978. Até àquela data, a única estrada existente terminava a cerca de 12 km do Piódão e a distância só podia ser ultrapassada a pé, por caminhos demasiado estreitos para permitir a passagem dos carros de bois. Tempos difíceis ainda frescos na memória das suas gentes, amenizados todavia por uma vida comunitária de entreajuda. Tempos idos em que o povo do Piódão moldava o destino com as próprias mãos.

Por todo o povoado nasce agora uma sensação de vazio: a estrada que lhes trouxe o conforto dos tempos modernos, quebra-lhes a solidariedade e a vontade, tira-lhes o destino das mãos e leva-lhes para longe os filhos da terra. Ficam os mais velhos trabalhando os estreitos socalcos de terra pouco profunda onde a máquina não pode trabalhar. E fica também, ainda, o sabor da chanfana, do cabrito assado ou do presunto e a imprescindível companheira das noites frias de inverno, a aguardente de mel ou de medronho.

Arquitectura da aldeia de Piódão

Subindo pela escarpa abrupta em forma de anfiteatro, humildemente entalhada na paisagem que a envolve, a aldeia do Piódão mantém ainda o traçado antigo e irregular, tão característico das aldeias medievais. A sensação de harmonia e integração no meio é de tal forma intensa, que tudo parece ter sido concebido de uma só vez, numa genial composição urbanística. Ruas estreitas e sinuosas abrem-se aqui e além em recantos diversificados. Solta-se a vista do chão de xisto, quando do fundo se ouvem as águas da ribeira do Piódão, entrecruzadas pelo chilrear cristalino da passarada. Ou esbarra então o olhar, nas paredes escuras do casario, para enfim se elevar pela montanha que o domina, até ao cume quase coberto pelas nuvens.

No chão, nas paredes das casas, e nas lousas que lhes servem de cobertura, o xisto impera par toda a aldeia, pontilhada pelo azul forte das portas e dos frisos das janelas. A unidade da cor é explicada como consequência do isolamento a que o Piódão esteve sujeito: a loja do Píodão só vendia tinta de uma cor, tal era a inacessibilidade do lugar. O interior das casas era geralmente dividido em dois pisos: em baixo um piso amplo, a loja, destinado a guardar os produtos de uma bem organizada agricultura de subsistência; e em cima, a madeira de castanho formava as divisões que constituíam a habitação da família.

Por cima de muitas das portas da aldeia vêem-se ainda algumas pequenas cruzes, diz-se, para afastar a trovoada. No domingo de Ramos os fiéis levam um ramo de oliveira para benzer e, nas noites de tempestade, fazem com ele uma cruz que é posta em cima das brasas da lareira ou na porta principal, invocando assim a protecção de Santa Bárbara para afastar a trovoada.

As casas descem de socalco em socalco ao sabor do monte, para se alargarem então na vasta praça que constitui o centro, a sala de visitas do Piódão, onde se ergue, orgulhosamente imaculada, a pequena Igreja Matriz. À noite, quando os candeeiros despejam a sua luz suave e amarelecida, toda a Aldeia parece metamorfosear-se num presépio iluminado e vivo, merecendo bem a designação de Aldeia Presépio.

Património

O conjunto arquitectónico da povoação forma uma das aldeias históricas protegidas. Com efeito, recebeu, nos anos 80, o Galo de Prata, condecoração atribuída à aldeia mais típica de Portugal. Aldeia classificada como Imóvel de Interesse Público. A aldeia tem um traçado e uma disposição típica de um povoamento de montanha. Abrigadas dos ventos dominantes, as casas trepam pela encosta acima. Os materiais de construção são aqueles que a serra oferece: xisto e madeira. As paredes têm duas camadas, uma exterior com pedras maiores e uma interior com pedras mais pequenas. Os telhados têm uma ou duas águas, chegando a ter quatro graus de inclinação em média.

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